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Saudosa Maloca
Em Saudosa Maloca, Adoniran Barbosa denuncia o avanço imobiliário devastador que toma conta de São Paulo desde início do século XX.

Ao contrário de boa parte da obra de Adoniran (em que a poesia se apóia sobre frases musicais curtas), Saudosa Maloca se desenvolve em uma extensa melodia, que “vai sempre em frente”, nos moldes de um samba-enredo.

Atrelados ao longo discurso e em perfeita sintonia, os versos desfilam poesia enquanto mantêm a expectativa no acompanhar da história. O retrato da maloca que é destruída para dar um lugar a um “adifício arto” é sintomático e espelha as injustiças sociais que podem se acirrar, principalmente com o chamado “progresso”.

Versos como “cada táuba que caía doía no coração” e “Deus da o frio conforme o coberto” continuam atuais e retratam, mais de 50 anos depois, cenas comuns à São Paulo de 2010.


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Si o senhor não está lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Esse edifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assombradado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mais, um dia
Nem nóis nem pode se alembrá
Veio os homi cas ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemo todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Aprecia a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Duia no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nós arranja outro lugar
Só se conformemo quando o Joca falou:
"Deus dá o frio conforme o cobertor"
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas



João Rubinato (1910) nasceu em Valinhos e está para o samba de São Paulo assim como Noel Rosa está para o do Rio de Janeiro. Com vocação para ator, locutor e compositor, cria seus personagens e dentre eles o próprio “Adoniran Barbosa”. Idealiza e sintetiza um linguajar híbrido - meio malandro negro, meio italiano do bairro do Bexiga - e alcança enorme sucesso especialmente na voz dos Demônios da Garoa.

Adoniran representa uma outra vertente do samba paulista, o samba italiano. Utilizando sua fala dialetal ítalo-brasileira, Adoniran narra o cotidiano paulista, as relações de amor e amizade e mapeia locais nos subúrbios a partir de suas canções.

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